Ninguém trabalha porque gosta, trabalha porque come.
16 de dezembro de 2013.
Tum-tum-tum viragudum
algodão d’algum, arueiros e posseiros
nesta área tão devasta, pai com a madrasta
filha n’água
duas legitimidades, do antepassado e d’antes passado
cujo dono roubeiro de aluguel d’outra terra
prefiro comida do que salário
comunista da mão na obra
legislatititivo
cai abrigo de empresa
agropecuária inteira
complexidão n’outro algum
sindicalizado teu feio retrato
capricho nato do caprino a carrapato.
29 de novembro de 2013.
Em cima da caixa de esgoto
faço meu almoço
em cima do tronco
entre cogumelos alados
pinheiros cansados
encontro repouso.
De verde encho meu dia
de sangue minha noite
escuridão em meu coração
apesar da mal avaliada compreensão
enquanto durarem as penas
cumpri-las-ei
caso contrário, teria feridas.
Perto do lago, dos animais
vejo rotinas de trabalho
vejo ossos, vejo galhos
gengibre rachado no mato
esporos novos modificados.
Queria talvez encontrar
uma nova alegria, uma nova companhia
uma nota perdida, sentimento sincero
loira, morena, ruiva ou negra
fosse minha estava em alegria.
Recupero-me lentamente
destruindo pedaços meus
costurando com mel e limão
o desenxabido e estranho coração.
15 horas e 13 minutos de 4 de abril de 2013.
Confiei na tua
higiene bucal
mesmo sem te conhecer
Pela força da tua
artéria lingual
mastigou o papel
sem me desmerecer
Da tua boca saiu
meu paraíso artificial
ao preço de vinte reais
Eu só vi teu sorriso
nem olhei na tua cara
não te reconheço mais
Se vê que a tua saliva
era boa
13 horas e 45 minutos de 29 de janeiro de 2014.
Se o problema da minha vida
fossem duas balas perdidas
uma no queixo outra na barriga
estaria em eterna alegria.
Se o anseio da minha sorte
fosse a cadeira da morte
punha dois seios postiços
e um recôncavo decote.
E se me dessem espumante
completava com éter e sangue
e clorofórmio delirante
para ampliar aquele instante.
Mas me deram um maçarico
um ferro pra soldar e um pinico
e assim segui a minha vida.
18 horas e 53 minutos de 2 de janeiro de 2014.
A micose que se faz por mitose
não se faz por osmose nem por Osbourn’Ozzy
Se alimenta a quitina
ao crescer a cretina
me peliculica por sob a retina
Oras bolas dela
que me embolota a derma
carruagens soltas da erisipela
Si versiculou a bola
bem na pitiríase-cola
mata o fungo brabo
antes de cheirar a cola
Botaocremiclonazol
por cima a sina do tersol
mãos e pés imaculados
rachados, podres e truncados
castra o bicho unguento sua maldade
sob a pena eterna da idade em grade.
Meia-noite e 54 minutos de 28 de novembro de 2013.
“Patricinhas...
Estupra depois mata.”
11 horas e um minuto de 14 de maio de 2013.
Comi teu véu de noiva
na noite de núpcias ensolarada
vestida como uma moribunda
você estava e professava:
“Caiam raios em minhas madeixas”
Pobre coitada!
Quebrei os sapatos de cristal
em mil pedaços
e engoli tudo, enquanto
rasgavam minha garganta
deliciava-me!
O vestido que outrora brilhava
agora em sangue se banha
e os olhos de peixe esbugalhados
e os dedos da mão direita tortos
soltam-se do corpo despedaçado.
Patética existência inacabada
risonha morte que a consagra!
19 de março de 2012.
Coisinha linda,
mas não é pro meu cacife...
19 horas e 58 minutos de 22 de maio de 2013.
A boa formiga é aquela que gosta de ser espezinhada
não tem medo da dor nem do futuro incerto
é uma criatura sublime, de emoções amplas e generosas
alimentada por uma boa mãe, é vistosa e sensual
possui valores sólidos e uma ética inalienável.
Pobre criatura, ao primeiro pisão não tem tempo nem de pensar...
As baratas, ao contrário, são seres deveras evoluídos
buscam uma raiz ancestral que legitime sua tirania
praticam o sexo livre e não são dadas à monogamia
e ainda possuem cascos duros para enfrentar qualquer confronto
preferem mil vezes um cano sujo a uma extensa pastagem.
Chegaram as baratinhas a tal ponto que seu DNA é complexo e mutante
só podem ser freadas com venenos fortíssimos
mas em poucas gerações retomam seus postos na mais alta hierarquia.
Não tente esmagá-las com pisões, aposte no ADT e no BGH em alta concentração!
Não deixe-as escapar, pois as chances de voltarem para lhe torturar são grandes!
Não confie nestas criaturas, pois na primeira ocasião te apunhalarão pelas costas!
Cultive sempre em sua casa um bom jardim de formiguinhas
elas desencadearão boas conversas e lhe darão emoções sinceras...
Se assim o quiser, é claro!
Meia-noite e cinco de 23 de outubro de 2012.