segunda-feira, 9 de março de 2015

Resquícios de Sábado à Noite

Resquícios de sábado à noite

no meu nariz todo dia eu encontro

é de segunda, é de quinta, é de terça

sempre aquela melequeira

na minha cama já não sobram calcinhas

só capsulinhas

e na minha mesa não vejo mais recados de amor

só poeira e canudo inerte a bolor

dentro de mim, na barriga comida, nas costas fadiga

e no pulmão e na cara?

Ai meu Deus, nem me diga!


E nem no dia que a caveira está na porta da loja

eu me arrisco sem medo e não saio de lá sem a droga.


E eu cada vez mais sensível, procurando armadura indolor

cada mais aflito em busca do amor

e se a morena ali do lado pra mim a saia levantasse, decerto que eu aproveitava, mas ainda assim não seria nada

se a Fernanda ou a Gisele aceitassem meu beijo, estaria eu ainda cheio de desejo

e se a Patrícia enfim me desse uma chance – era tudo o que eu queria até ontem – bem capaz que eu enchia minha cara de novo de sangue.


Dizem que se aprende com o erro, eu até concordo

e se eu continuo errando é porque não aprendi ainda, não chegou a hora

mas isso não pode ser burrice, acho que é mesmo assim.


No ano passado até tentei apagar com borracha o meu coração do peito

enterrar todos os meus sentimentos, e eu bem que consegui

mas até a escuridão um dia passa, o Sol nasce

até a crença um dia some, o corpo morre

até o maior de todos os amores um dia esfria, como a exaustão de uma bateria

até o monge tibetano um dia cai em engano...


Não choro apenas porque não produzo lágrimas

a tristeza e a solidão são amigas traiçoeiras

da sociedade nada espero, nem na paz e tampouco na guerra

de mim, certeza só o caixão (que quero que pintem de anil)

posso até me jogar na frente de um carro, pular do alto de um prédio, tomar Propofol como o rei do pop, insultar um homem armado da lei ou como Annie Taylor me enfiar num barril

mas nada, nada nesse mundo pode me trazer de volta aquele mês de abril.


16 horas e 4 minutos de 16 de dezembro de 2014.

Virilha

O sono não vinha de jeito nenhum e já era mais de quatro da manhã, eu tinha que levantar as cinco. Como não tinha o que fazer, decidi raspar os pêlos e ficar liso igual um bebê. Depois de muita espera a grande noite chegou, tomei um banho decente e escovei meus dentes pra poder lhe beijar. Bem na hora H ela me vem com essa “Que é isso, Hércules? Virou viadinho? Era só essa que me faltava... depilando a virilha...” e eu “Ah, pra quê essa frescura! Cai de boca, filha! Lambuza! Castiga!”


5 de janeiro de 2015.

Contrabandono

O efeito da lidocaína dura cinco minutos

são instantes tão enxutos

que cai uma lágrima pelo canudo

que aspira todo aquele conteúdo.


A cavidade mal irrigada

e por todos mal interpretada

pela língua antecipada

que nem parece mais navalha.


Na estação Macedônia

dum trem numa velocidade

que nem abafa minha agonia.


Risonho só o comerciante do Rio

que engana a mocidade

em seu contrabandono clandestino.


10 de outubro de 2014.

O Trouxa (nº 2)

Quando eu estava na biqueira ela mandou uma mensagem trazendo dinheiro e trabalho, pra eu comprar mais... pra você pagar as contas, seu trouxa!


14 de outubro de 2014.

Cocaína

É fácil, você pode escolher:


Zona Norte, pó de vidro

Zona Oeste, pó de mármore

Zona Sul, lidocaína

Zona Leste, ácido bórico

e no Centro, anfetamina


Só esqueceram mesmo é de pôr a cocaína...


8 de setembro de 2014.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Despedida pedida

Entre um embarque e outro

não foi mais que meia hora

não foi mais que uma vida

que até a catraca travou desiludida.


Meu pai que me protege

que me liga, bem na hora, e evita

que me livra da bala perdida

da arma do policial civil enfurecida.


Há tempos que pedia esta despedida

há tempos que pedia esta mordida.


Não foi um beijo como o do Kurt, o do Philip ou o do Jimi

mas foi o beijo mais longo da minha vida.


Foi um beijo doce e traiçoeiro

um beijo tão pedido de pedreiro.


8 de janeiro de 2015.

Dois anos de vadiagem

Completei dois anos de vadiagem e nem percebi

dia dezoito de janeiro de dois mil e treze fui mandando embora

enxotado, espezinhado, posto na rua como um despejado

fugi da polícia, corri pelas vielas da favela

cai no chão de cara na bosta do gato

me caguei todo, fui espancado por três maltrapilhos

bebi urina e meu próprio sangue...


Sai renovado, como um passarinho que aprende a voar

por meses a fio vivi os melhores anos da minha vida

andava pelos parques da cidade, conhecia novos lugares

não falava com ninguém, mas me divertia

morei de favor, vendi drogas, vendi até o meu próprio corpo

me desconectei de tudo...


Mas a realidade voltou em seguida

ao final do melhor ano da minha vida descobri a sangria

minha saliva já não era mais a mesma, meus pensamentos abstratos perdidos no ar

nem meu sexo, tão calorento e selvagem, virou algo minguado que não dá nem vontade...


Completei esses dois anos e agora é a hora

o astrólogo argentino – maldito, pra quê tanta sinceridade? – disse pra deixar pra trás tudo isso

eu, um pouco confuso, que nem lembrei do aniversário trágico, devo me decidir.


Conto com Deus, e ninguém mais!


21 horas e 40 minutos de 18 de janeiro de 2015.

Ônibus Lotado

Dei um tiro pra pegar no tiro um ônibus faminto por gente cor de vinho tinto

O fedor do suadouro no couro deste povo enjaulado no automóvel feito touro

Só não relincha porque está cansado deste dia de pura fadiga no final do dia

Com o cheiro da fábrica que se fabrica do lado do quarto de ninar imbica

o ar fétido da combustão de petróleo e bauxita

Choram o choro da solidão neste mato sem cachorro

Quando chega no mato mesmo não mata nem a fome

Se o feijão é duro não reclama pro patrão que ele é mais duro

Antes disso passa pela fábrica de blocos onde o monobloco produz tijolos

É árduo o serviço que nem chouriço põe na testa a cartola, nem refresco de cola

No barraco de madeira está a esteira onde dorme a família inteira

Do lado de fora o cachorro magro em sua portinhola

Descansa Seu Gildo, que agora pode

Não me pede esmola que mal dormiu daqui a pouco está na hora

acorda logo e vai trabalhar sem demora.


17 hora de 16 de dezembro de 2014.

Sushi

Sushi com cocaína não combina.


15 de novembro de 2014.

No último verão

Perdi todos os pêlos do nariz no último verão

no ouvido produção excessiva de cera

os olhos esbugalhados com miopia aumentada

migrânea do lado esquerdo

catarro encrustado no esfenóide.


E o pior é que o último verão não volta mais pra terminar o serviço.


11 de outubro de 2014.