Chega! A brincadeira perdeu a graça.
14 de outubro de 2014.
Olha, o peixe morto voltou
nadando em águas radioativamente ativas
com a boca fincada no anzol
e cheio de droga de peixe na barriga
Não é ômega 3 nem ovas de salmão
não é tintura de polvo nem dente de baiacu
do padre não sobrou nem o sermão
e do negro d’água nem o pau nem o cu
Respingando sêmen no canto esquerdo da boca
escorreu pela garganta a barrigada da sardinha
Iansã estuprada deu uma de louca
e meteu entre as pernas a cabeça da manjubinha
Foi então que Seu Peixuxa acendeu seu charuto
esfumaçando a gleba de 7 por 12
meteu no nariz o canudo
e bateu na filha com aquela velha e enferrujada foice
O peixe fora d’água morria feliz
excretando as vísceras podres de dois anos atrás
eram só os restos consagrados de mim
perdi com violência a virgindade da frente e de trás
Seguia para a fossa abissal
de encontro com os peixes-bruxas
corria no oceano fugindo pelo fundo do quintal
como o casco submerso de uma tartaruga
Encheram de estricnina a boca
e de arsênico o cu
caiu a realidade brava
a morte no mar é verde, vermelha ou azul?
2 horas e 22 minutos de 25 de março de 2015.
Te sinto no corneto médio e no meato... escorre pelo palato... contraem-se as tonsilas... pornograficamente adicta, uma garganta profunda de cocaína.
7 de janeiro de 2015.
Comi minha última refeição naquele velho restaurante cheio de juventude e vinagre
no dia tinha frango quase cru, assado e ensopado
estava com um sabor bom, bem temperado
pra acompanhar tinha salada de repolho e chuchu refogado
foi um banquete, o último depois de tantos anos
e apesar do cardápio monótono eu nunca reclamei porque Deus não perdoa desperdício
enchi o prato com arroz, feijão e farinha
em menos de dez minutos devorei tudo
era uma vida que passava pela minha boca
minhas papilas gustativas já não eram mais as mesmas
meu pulmão preto e o meu esôfago furado por enquanto ainda funcionavam
foram cinco anos, mais de quinhentas refeições
me mandaram pra bem longe, onde Deus não faz morada
mas aceitei sem maiores problemas o meu destino
ainda estou tentando encontrar felicidade, apesar da avançada idade
não encontrarei mais aquelas coxas de moça jovem nem as coxas de frango
não perturbarei mais aqueles que vão ao banheiro e encontram a porta fechada
não vou mais ficar te olhando sem pudor, fique tranquila
não vou decepcionar de novo as suas expectativas nem as minhas
adeus cozinheiro nordestino, adeus meu crocante frango frito
continue alimentando essa gente, não importa se tem ou não Deus na mente
alimenta essa gente, alimenta esse povo.
15 horas e 1 minuto de 26 de fevereiro de 2015.
Dois sachês de chá de canela, quatro colheres de sopa de mel de eucalipto, três cravos de Índia, uma dose de 30 ml de rum branco e 300 ml de água mineral. Aqueça todos os ingredientes em uma chaleira, mas não deixe ferver. Pique 6 gr de cogumelos mágicos vendidos secos, e embalados a vácuo por uma empresa idônea, ao preço de R$ 60, em um copo. Despeje a mistura, mexa um pouco e cubra. Deixe esfriar por uma hora. Coe e jogue fora os cogumelos. Em uma tarde aprazível de domingo tome a bebida e procure por pessoas de mente aberta que não queiram discutir Marx nem Kant, nem Schopenhauer e nem Dostoiévski. Não carregue consigo muitos pertences, pois a chance de perdê-los é grande. Carregue apenas o documento, dinheiro e cigarros (se você for tabagista como eu, é claro). Em apenas três horas você terá restabelecido sua consciência e sentirá saudades daquela “pequena morte”. Evite repetir a intoxicação por mais de dois dias seguidos.
13 horas e 11 minutos de 24 de março de 2015.
’Quele garoto co’aquela lua
ressabia de quem passa ao lado
regurgita enquanto aspira
o ar inebriante d’éter d’outr’álguem
céu iluminado d’estrelas gotejantes
lebre, rat’ou castor se passam de ruminantes
é c’a magrugada é curta
não dura o pingo d’um pino
e qu’esta’questão não é tão simples
não depende de mim nem das libr’esterlinas
respin’goteira na cabeça da minha cabeceira
que molh’até o saco
escraninhainha de labirintiteíte
castr’o castor antes qu’é tarde
não descansa nem na sexta-feira santa
e como o kaiowá-nhambiqwara mat’a’nta e come
se fosse uma bolinha de cera n’ouvid’esquerdo
estava bom qu’era fácil, fácil
mas a magrud’acabou era tantas’pras’tantas.
Pingo de água verde escarlatina de lamentaciúncula de duas e vinte da matina de primeiro de abril de dois mil e quinze do ano de Cachadaço-Playmobil.
O que era aquilo? Um oxi crackeado ou um crack oxidado?
Meio-dia e 24 minutos de 19 de março de 2015.
Naquele maço de cigarro guardo meu suicídio
nele levo mil e um venenos, digo, crack e cocaína
que eu compro ali na esquina, bem pertinho
desagrada ao Senhor e também ao meu fígado
e ainda por cima nem me desbaratina.
Procurei no teu amor a minha salvação
não encontrei e me entreguei ao vício
vendi tudo o que eu tinha, um porrete e um maçarico
hoje só tenho lápis e papel pra te escrever essas palavras
polvilhadas à cocaína.
E você ainda está comigo
seu amor deixou de ser meu vício
há mais de dez anos juntos, não encontro uma saída
nem as suas tatuagens cadavéricas, nem a sua pélvis molhada
me animam.
11 horas e 38 minutos de 11 de dezembro de 2014.
Eu vou fumar um beck antes de ir no Mac
vou comer feijão atômico ouvindo o rádio
cheirar caneta Bic num canudo plástico
tampar os meus ouvidos com farelo mágico
descer na contramão da autopista rápido
comer um cogumelo do meio do asfalto.
Alô, alô, seu Juvêncio
aquele abraço
alô, marginal de Ipanema
aquele raio
alô, ladrão de sapato
quadradinho dado
alô, mendigo com efisema
aquele abraço!
Alô, povo do Glicério
aquele dado
alô, moça magra e alta
um forte agarro
quem gosta de mim sou eu
naquele raio
quem gosta de mim sou
eu sou um trapo...
11 de dezembro de 2014.
Fui lá pensando encontrar mel orgânico, mel novo
só encontrei borracha torta com essência dum semimorto
travou e atravancou de novo meu até aqui então forte organismo
raspa do tacho da tia da cozinha que cozinha ali ao lado
displicentemente arrancou tudo o que eu tinha
sorte minha que eu tinha recebido
quiçá amanhã ou antes de ontem eu encontre coisa boa
porque essa molecada de hoje em dia já não mostra mais fibra
se entorpecem o dia inteiro e estragam minha narina
e eu já não penso em outra coisa na vida...
pobre de mim.
9 horas e 18 minutos de 21 de outubro de 2014.