sábado, 5 de julho de 2014

A Barca

Só barca na rua

peluda sem escrúpulos

de velhos tempos de ditadura

sê levado pela viatura

incrédula na avenida

à paisana, despercebida

é loucura cruzar na tua rua

d’oito tiros morreu Dom Quimura

estreitamente afoita

esperando pela tua forca

com a força da desafiada foice

no silêncio acabou a noite

sem despedida nem bala perdida

só tiro certeiro na ponta da agulha

volta pra casa sem o tiroteio

e da mulher faz a tua barriga

que n’outro dia retorna à briga.


12 de março de 2014.

Colecionador de Latas

Eu comecei colecionando papéis

depois eu fui colecionando plástico

logo depois colecionando latas

e hoje estou colecionando nada.


18 de dezembro de 2013.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Você quer ser chic?

Todo mundo quer ser chic

quer ser fino e elegante

e não percebe que isso é

grudar num grude que não é seu

meleca do nariz dos outros

é limpar o vaso do presidiário

e vestir seu belo casaco listrado.


Não percebe que elegância

é respeitar a si mesmo e aos outros

é amar a quem te ama sem medo

pouca importa os talheres postos na mesa

ou os cabelos bem penteados

que mesmo nos pés tenha chinelos

tendo um sorriso de caramelo

estará assim elegantíssimo.


Pare de ser o que os outros querem...

encontre a sua felicidade.


Meio-dia e 50 minutos de 19 de julho de 2013.

O Horóscopo e o Crack

Certo dia Rumineu cansou de ruminar e decidiu olhar o horóscopo para ver no que ia dar. Lá dizia que o dia de muito não prometia, e que era bom guardar fatia do quinhão de dinheirinho. Bem no dia em que ele ia visitar aquela tia que vendia crackzinho pra poder comprar vestido. Refletiu o jovem Rumineu, bom temeroso a Deus, se o deus daquele Deus era mesmo o seu deus. Se lembrou daquela amiga que adorava Grécia antiga, se sentou e tomou vinho e até encheu barriga. Lhe dizia que horóscopo era só mitologia, que aquela parafernália no fim de nada valia.

Educado o pobre moço não sabia o que fazer, se gastava os vinte contos ou se deixava desvanecer. Posto o posto de trabalho, e depositadas as mixarias, decidiu enfim que ia atrás das quinquilharias. Como de habitual lá estava o marginal com seu penduricalho de trouxas, para trouxas, embrulhadas em jornal. Fechado o negócio com rapidez, dobrou a esquina Rumineu e deu de cara pálida com o inimigo do freguês. Avisaram os astros, mas o moço não ouviu, seguiram-no os panteras negras até a volta do rio. Sorte tem esse Rumineu, com seus ares bem pomposos, que afastou o olhar daqueles sedentos por ossos novos. E assim voltou com alegria para o lar, temeroso a Deus, continuava a ruminar.


19 horas e 10 minutos de 4 de julho de 2013.

Tecnologia

Um cego com touchscreen...


4 de dezembro de 2013.

Que Merda

Sexistas

qual é qual?

Racistas

desce o pau.


Machistas

ancestral

Pessimistas

tal e qual.


Esteticistas

afinal

Clarinetista

musical.


Canabistas

sempre igual

Calculistas

sem final.


2011.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Um sonho lindo

Porque você foi embora?

Bem no momento de agora

queria tanto estar em teus braços

ganhando e dando afagos

relacionando tudo ao nosso caso

queimando a lenha do amor

mas agora sinto dor

talvez queria eu o impossível

só queria beijar teu umbigo

você nem me viu, mas olhou

atordoou meu coração em vão

posso ser teu servo neste instante

se quiseres me pegue pela mão

leva contigo ou me deixa morrer

minha paixão clic-clac

choro por não ter esmola

para te comprar o céu e a terra

te encher de ouro e carinho

mas você não quer estar comigo

choro pelo não vivido

não enxergo sem óculos

deixa para o acaso

nosso encontro tão

e tão sonhado.


20 horas e 34 minutos de 28 de abril de 2013.

Lençol de desenganos

Dormindo ao lado do traidor

perto de sua boca traiçoeira

agarrado por suas mãos de asperezas

um lençol sujo e feio foi o que me sobrou

teu olhar soturno me mira inconscientemente

e minha mente perdida em desengano

já não fecha mais elétrons

que vagueiam tão perdidos

pela massa encefálica.


O amanhã como um novo dia libertador

a hemorragia estancou...

Eu acho...


10 horas e 53 minutos de 23 de outubro de 2012.

Teixeira, o melhor queijo de São Paulo e região

Hoje eu vou gangrenar a face

entupir os sinos paranasais

deslumbrar o olhar turvo

esfumaçar o quarto, a vila e o bairro

encher a barriga de álcool 92

e destruir as velhas adagas

de anos passados, de momentos não vividos

ouvir o som mais alto

incomodar os vizinhos enquanto me acomodo

de olho numa estrada calma

distraindo o tempo

recheando de bombons aromatizados

em poeira que sobe e desce

pois Nicuri é o diabo

vaporiza o que é sólido

grão em grão queimando

de olho n’água

robustos olhos, melhor que escapa

nhô nhô nhô e nhá nhá nhá foram pro céu

descido a costa alta, relutante deste naufrágio

uma selva de pedra de pedras

não queria essa raspa de Teixeira

queijo ralado, marca fraca, vaca pobre

deliciosos recôncavos, dorme velhinho

apodrecido pelo já reorganizado espírito

calço qualquer calo, rapadura é o que não falta

roda a roda redonda em voltas cíclicas de outrora

chegando ao infinito

nada me é restrito, tudo parece possível

juventude de volta, umbilicalmente o umbigo

sabão de coco misturado na narina desagradada

só queria matar a saudade, e fingir que você não vê

nem meu grito, nem meu lamento

mas nem sei mais quanto eu aguento

prefiro não arriscar o intento

melhor mesmo voltar a realidade

e parar de perder meu tempo.


Meia-noite e 35 de 2 de agosto de 2013.

SMS

Sob a luz de um celular temeroso

apodrecido o múltiplo gozo

meu olho esquerdo desgostoso

e você me olhando sem nojo


Parece até um telefone

e Matthew já mostrava o cremaster

mas não é disso que falo

seja ele delirante ou não


Peço socorro? Não.

Não sinto a vontade do pão

nem dos jogos de mão

tampouco dos lábios rachados


Dos sentimentos eternos

falsos e irreais foram meus dias

crescido, o broto

mas melhor fazer mesmo o aborto


Na encruzilhada que me encontro

tuas vaias me ferem

teus toques me fecham

teu calor não comove

melhor você como alma penada

do que isto que chama de todo

mas realmente não é nada.


11 horas e 50 minutos de 5 de fevereiro de 2013.