quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Más companhias

– E aí cara, vai um gole de metal líquido?

– Não, obrigado. Estou resfriado.

– Poxa, cara, prova um pouco de haxixe de banha.

– Não, obrigado. Meu fígado já se juntou até com as entranhas.

– Então porque não tenta bosta de gato alucinado?

– Porque minhas fezes já saíram com sangue e cloridrato.

– Esquece vai, até ia te apresentar um piche em pó que é melhor que rapé.

– Não tô podendo, meu. Já to recheado de verme do cérebro até o dedão do pé.

– Mas nem mesmo um golinho de cana de bituca de cigarro?

– Se eu tomo isso eu tusso, vomito e escarro.

– Tá certo então (que eu vou atrás de outro otário).


16 horas e 38 minutos de 21 de junho de 2015.

Se o amor não chega

Se o amor não chega, pelo menos ela me meleca inteiro.


10 horas e 27 minutos de 24 de novembro de 2014.

Drogadicto também ama

Quando quero muita pedra, tá ruim

quando quero pouco pó, tá bom

quando quero muito pó, tá ruim

quando quero pouca pedra, tá bom…


E assim não sacio de jeito maneira o meu desejo incontrolável de fugir de mim mesmo, de afogar os meus anseios, de curar meu coração como um queijo mineiro, de saber a hora certa de te pedir um beijo, de entrar em desespero, de saber tirar proveito dos meus devaneios, de gastar com consciência o meu dinheiro, de enfiar sem medo a cara no travesseiro, de me enturmar na hora do recreio, de sair pelo mundo como um forasteiro, de ir direto ao ponto sem rodeios, de esquecer meus pagamentos corriqueiros, de acender o isqueiro sem receios, de mudar meus hábitos em janeiro, de entrar em transe com o aquele velho cântico jongueiro… enfim, de ser eu mesmo por inteiro.


8 de janeiro de 2015.

Madrugada

Na madrugada faço mil e uma infusões químicas

preparo mil e uma misturas químicas em cigarros de tabaco ou de cannabis

peneiro bem peneirado o rapé perfumado que ataca meu palato e dele faz sair no céu da boca um osso brabo

eu rio da minha sorte de principiante e da minha desgraça há vinte e seis meses anunciada

me desculpe se não fui sincero, não tenho culpa se você não percebe o meu estado alucinado (se bem que eu disfarço bem)

se o amor é para todos, o vagabundo também tem direito de amar e se lambuzar com o muco vaginal

quando fomos para Marselha você não reparou na minha coriza e no cheiro forte que saia da minha boca

você não sabia que dois dias antes eu tinha encontrado um marroquino no porto (veja bem como sou disciplinado, eu disse “dois dias antes”)

é verdade, aquelas picadas no braço eram da enfermeira com Parkinson do hospital Le Givre

e quando encontramos a miséria viva em Luanda você acreditou mesmo que iboga era um chá pra dor de estômago

e no Rio de Janeiro, aquela cidade sempre maravilhosa, cheia de morros e favelas (sim, no Rio de Janeiro, aquela cidade sempre maravilhosa)

você pensou que o Rodrigo era mesmo um amigo de infância…


Na madrugada você dorme, meu amor, e eu não viro coruja, eu viro é rato

na madrugada todos dormem, minha mãe dorme, meu irmão dorme, minha irmã dorme e você também dorme

quando corto minha língua com navalha, a fumaça que impregna meu quarto de estar sai até pelo ralo

do intelectualismo ostrogodo que de dia eu vivo, de noite eu me transformo

se sou um burro ou um chato, acho que sou os dois

na calada da noite ponho meu disfarce, e não é de Mister M nem de Wally

é de Herculano Novaes, homem normal em sua indiferença crônica

um dia você voa passarinho, mas só no dia que eu abrir a gaiola.


9 horas e 12 minutos de 22 de março de 2015.

O Velho e o Moço

O velho traz pro moço o que é do moço. O moço dá pro velho o que é pro moço. O que é pro moço não é pro moço nem pro velho. E o que é pro velho também é pro moço. Nem o moço nem o velho tem o que é pro velho, só o que é pro moço. E o que é pro velho não sobra, nem o que é pro moço.


Meio-dia e 26 minutos de 4 de dezembro de 2015.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Mitocôndria

Os portugueses chegaram com botinas de plástico cor-de-rosa, envoltos em mantos árabes cantando unidunitê. A indiarada de caminhonete 4×4 não quis nem saber e descarregou a cartucheira de bala de metralhadora russa na portuguesada. Meia dúzia de gazelas abatidas subiram lá no alto da Cordilheira pra se esconder do senador-policial Inhãúmãsã que chegou com duas profissionais do sexo holandesas, as duas penduradas por baixo dele, uma lambia o saco e a outra lambia o cu, enquanto ele procurava pela mira do rifle Sniper® os recém-chegados. Feito um acordo às pressas, o português foi na feira comprar uma vaca que veio cheia de super cola, aceitou o trabalho forçado do índio bravo e xingou sua própria mãe em Algarve. Uma televisão foi vendida também e um dos portugueses quis comprar um pênis de borracha na choupana da Madre Teresa do Humaitá, irmã de Santa Rita do Passa Quatro (oh, boy!). Voltando pra aldeia, isso por volta de 1500, a Internet 4G não funcionava muito bem e o português foi obrigado a tirar leite do pau do Brasil, um negrão africano, rei do Congo e do Benim, que fugiu da sua terra após um golpe militar financiado pela social-democracia apache e por Mpintinga Zondum Cafuzê, líder religioso maometano mantenedor de 7248 mulheres, e a partir daí passou a vender escravos malaios e polinésios nas costas brasileiras, daí a alcunha. O português não se acostumou, pois o trabalho era realmente duro e desistiu depois do vigésimo segundo ano. Quis voltar para sua terra e pra comprar a passagem do cruzeiro ANMM (AíNoMarMemo) resolveu vender pedras de sabão, pedras de crack e pedras mesmo, obtendo sucesso com as duas primeiras. Voltando pra sua terrinha encontrou uma nação desolada pela guerra, pela seca e pela fome. Naquele instante exato que abraçou seus quatro filhos sem braços, mutilados por minas de piche e de aço debaixo do asfalto, sentiu tanta falta daquela indiarada sanguinária e safada.


3 horas e 36 minutos de 21 de abril de 2015.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dichavando a roupa do varal com expurgo de gato

Vomitei 400 ml de nitroglicerina com cal virgem de São Tomas de Aquino.

Caguei duas ou três vezes na privada do padre e deixei três ou quatro marcas de bosta.

Nem vi sua assadura nem a minha erupção cutânea.

Nas minhas narinas já não entram mais cloreto de sódio com estricnina.

Não vejo graça na Praça é Nossa nem na vida.

Não vejo nem as crianças que me pedem esmola, nem traficantes descalços fumando cigarros de maconha.

Desci até o décimo quarto subsolo e não encontrei o diabo.

Fui para Osasco atrás de um rabo de saia e só encontrei Trident por um real.

Óculos escuros pra me clarear a vista e sapatênis pra parecer bonito.

Catei quantos coquinhos consegui e descasquei setecentas batatas do jeito que você pediu.

Nada disso me agrada.

Virei para a esquerda pra fugir do Seu Coelho, furei a fila do banco e não estava armado.

A logística da minha vida está enfrentando greves nas estradas.

Se a economia vai mal resolvi encher os bolsos de antrax e sair cumprimentando todo mundo.

Comi um caramujo no vão entre o trem e a plataforma.

Por que Deus não me mandou embora?

Vai ver que simpatizou comigo.

Não servi o exército e não pago imposto de renda.

Não tenho filhos nem animais domésticos, só eu mesmo.

Nunca encabecei revolta nem desvirginei a filha do Seu João.

Escolhi a dedo a pasta de dentes, o enxaguante bucal e o lubrificante íntimo.

Até esqueci minha consulta no Hospital das Clínicas.

Acho que paro por aqui, antes que os gatos do vizinho venham comer minha comida: mingau.


Meio-dia e 3 de 30 de maio de 2015.

A Viagem Psicodélica

A viagem começa quando o último ônibus passa e termina quando o primeiro sai da garagem.


Meia-noite e 9 minutos de 26 e maio de 2015.

M&M’s

Aqueles pedacinhos de cor que são os M&M’s

não impressionam pelo seu gosto doce de confeito anilinado

nem pelo câncer vivo introduzido no estômago

agradam muito mais pelos seus potinhos cilíndricos

de plástico duro ultra-resistente nas cores vermelha, azul e amarela

bem tampados, fechadíssimos

são muito úteis nos dias de chuva molhada

podem guardar bem guardadas pontas de cigarros de todos os tipos, texturas e sabores

se prefere uma dose de chás diversos e variados ou de cachaça também pode

ou porta-remédios com a escala de centigramas indicada

são certamente duma utilidade mil aqueles potinhos vendidos ao preço de R$ 2,29

(valor corrigido para o mês de março de 2015)

me acompanham sempre no bolso esquerdo ou no direito

cada um com a sua cor e seus conteúdos mágicos

vez em vez enjôo, jogo fora e compro outros

e assim vou renovando o meu interminável engano.


1 hora e 16 minutos de 11 de abril de 2015.

Substância

Já furei meu pulmão

já estourei uma veia do braço

já irritei bem irritados os cornetos e o palato

que até nasceu no céu da boca um osso brabo

agora cavuco o estômago com toxina botulínica

pra ver se chega nas entranhas a substância

e escorre pelo reto pra curar minha hemorróida assada.


Cansei de caçar carrapato

cansei de me enfiar no mato

nunca corri feito um louco

nem disse asneiras embriagado

meu sonho mesmo escorreu pelo ralo

e na escrivaninha do quarto não sobrou nem o seu retrato

trancaram tudo e me proibiram de entrar

cansei dessa vida e agora são nas mágoas da minha barriga que encontro a substância ativa.


13 horas e 58 minutos de 7 de abril de 2015.